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quinta-feira, 21 de julho de 2011

FEITO PIPA...

Meninos soltando pipas, 1948 (PORTINARI, Cândido)
Céu de anil, límpido, poucas nuvens ousam despontar e ocultar este tempo de luz intensa que reaviva e dá cores à paisagem, retarda a boca da noite. Cenário perfeito para ela voar soberana ao vento da mais sincera irresponsabilidade..., na mais irracional liberdade. Liberdade de imaginário pueril. É esta sensação inocente que atrai, muito mais que o colorido da pipa em contraste com os nuances de azul da imensidão do infinito. Liberdade nacarada no infinito azul da paisagem furta-cor: a pipa voando no céu... O céu azul como aquilo que nos envolve sem prender, todavia sempre nos faz transcender...


Pipas, 1941  (PORTINARI, Cândido)

Essa louca sensação se desfaz quando deixamos de olhar para o alto e, xinamos nos limites do finito, do aqui embaixo. Percebemos, então, que ela está por um fio. Um fio que o firmamento esconde como esconde o véu formado pelas gotas da chuva de verão, percebido somente a poucos metros do chão. Liberdade por um fio, que de tão indefeso e manipulador precisa ser passado num pó cortante misturado a uma espécie de grude. É o fio com cerol que dilacera e nos ajuda a sentir a sensação de liberdade segura. Pois ela pode ser perturbada, cortada, pela liberdade de outrem.
    
Meninos Soltando pipas, 1947  (PORTINARI, Cândido)
Daí, tornar-se-á liberdade desacorrentada em queda quase livre. Pois, mesmo antes de cair é tão desejada, cobiçada, que às vezes nem chega a cair. Logo, desprendida pode enroscar-se ao fio de outra liberdade, num emaranhado arado ou, pelo contrário, ao cair por terra, deve acorrentar-se às mãos de um novo destino, que forja uma nova sensação inocente ou, livremente, ressuscita àquela vetada pela indefinição de um tempo de arrebol, pela noite que subsume o colorido e a torna, se insistente, cruenta liberdade... impregnada de reveses.


Meninos soltando pipas, 1947  (PORTINARI, Cândido) 
Minha liberdade nunca mais sentiu o prazer de um dia de sol, que faz irromper todas as cores na seda e esconde o fio do existir... Não me permitiu mais olhar para o alto e sentir o infinito que me fazia transcender, flanar, xinar leve nos braços da paz azul... Não tenho mais aquela estrutura leve com pele de seda ao vento. Ela está amarada a um fio inquebrável, mesmo contra a lei que quer torná-la livre liberdade vulnerável. O fio que antes eu descaia sem desprender e sumia na imensidão do meu devaneio de luz, não me permite nenhum voo. Nem ensinar a brincar de liberdade eu sei... Careço do céu de Brodowski, cheio da liberdade dos meninos de Portinari.


(Hadson de Sousa)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

CAPANEMA NO PÓDIO DA DANÇA


Nosso “Mato Azarado” está com sorte na dança... No início deste mês de julho, recebemos mais cinco premiações em um grande festival de nível internacional na capital do estado do Ceará, Fortaleza. Desta vez fomos ovacionados em um dos palcos mais importante do Brasil: Teatro José de Alencar. Sob o julgamento criterioso de grandes estrelas da dança, renomadas internacionalmente: Gisela Vaz (Goiás), Mariza Estrella (Rio de Janeiro), Wanderley Lopes (Paraná) e Guivalde Almeida (São Paulo).

A Academia de Dança Chiara Rêgo aumentou a prateleira da estante para ornar com mais cinco troféus: 2º lugar na categoria balé clássico livre infantil (não houve 1º lugar) – coreografia “Baile da Corte”; único grupo classificado em estilo livre infantil – coreografia “Capubalé”; único grupo classificado na categoria jazz juvenil – coreografia “Gangsters”; único grupo classificado na categoria balé clássico livre juvenil – coreografia “Nevasca”; único grupo classificado na categoria dança do ventre (solo adulto) – coreografia “Princesa Isis” (interpretada pela Prof.ª Chiara Rêgo). 

“Fiquei surpresa com os prêmios, pois o FENDAFOR é de um nível de dança muito elevado. Todavia, eles servem de bálsamo para o nosso trabalho, de gratificação aos nossos alunos, pais, mães e todos que nos acompanharam e sempre nos dão muito incentivo e apoio. Em especial para o município de Capanema, sempre muito bem representado pela arte da dança, em todos os festivais que participamos, mesmo sem o incentivo de políticas públicas que se equiparem ao nosso potencial artístico. Fico feliz quando as pessoas nos parabenizam pelo trabalho e perguntam de onde somos. Sinto prazer ao falar da nossa Capanema.”, declara a coreógrafa Chiara Rêgo emocionada com as conquistas da Academia.

Além desses troféus, a professora Chiara recebeu muitas congratulações, pelo trabalho da Academia “Chiara Rêgo”, de um importante nome da dança clássica no mundo, a professora Maria Clara (Belo Horizonte) – Maitre da Royal Academy of Dance no Brasil há 35 anos, jurada em vários concursos internacionais (Havana (Cuba) e Moscou (Rússia)) – e considera muito mais importante que os troféus: “Ser reconhecida e vista por esta gigante da dança, é realmente o melhor prêmio”, confessa.


Bailarina Chiara Rêgo premiada no FENDAFOR, na categoria Dança do Ventre.

Bailarinas da coreografia “Baile da corte”, premiada no FENDAFOR:
Juliana, Lohana, Lanna, Jannyele, Letícia, Fabiane, Lívia e Noélia.


Bailarinas da coreografia “Nevasca”, premiada no FENDAFOR:
Maria Karoline, Mariana Brito, Lanna Zaynara e Tainá Alencar.

Bailarinas e capoeiristas (AISSERIS) da coreografia “Capubalé”, premiada no FENDAFOR:
Willian, Noélia, Lanna, Pétrick, Jannyele, Diogo, Victor, Lohana, Nilton e Luana.

Bailarinas(os) da coreografia “Gangsters ”, premiada no FENDAFOR:
Hadson de Sousa, Maria Karoline, Tainá Alencar, Chiara Rêgo, Lanna Zaynara,
Jannyelle Damasceno, Alan Jhonatan e. Luana Thelly.

domingo, 19 de junho de 2011

ACADEMIA CHIARA RÊGO: NAS TRILHAS DA DANÇA...


Os bailarinos e bailarinas da Academia de Dança “Chiara Rêgo” estão numa rotina intensa de trabalho: suando as malhas... Motivo: de 28 de junho a 03 de julho, Capanema e o estado do Pará serão representados em um grande festival internacional de dança realizado na capital brasileira do forró, Fortaleza. O FENDAFOR XI – Festival Internacional de Dança de Fortaleza e Itinerante do Ceará, objetiva proporcionar oportunidades para o desenvolvimento de novos talentos e a troca de experiência entre grupos, bailarinos e Cias. de Dança de todo Brasil e outros países do mundo. Além de ampliar o calendário cultural do nosso país, colocando o FENDAFOR entre os grandes Festivais Nacionais e Internacionais de Dança do Brasil.


A Academia de Dança “Chiara Rêgo”, selecionada para participar do festival, irá com uma comitiva composta por mais de cinquenta pessoas: bailarinos(as), pais, mães e amantes da dança. Também integrarão o grupo, bailarinos(as) da AISSERIS – Associação de Integração Social Sebastião Ribeiro da Silva, com total apoio da Ir. Edna Lima (Presidente da AISSERIS) e da Ir. Anna D’LLouro (ex-coordenadora das atividades artísticas). A Academia apresentará vinte coreografias (balé clássico, jazz, contemporâneo, dança do ventre, dança de salão e dança de rua) assinadas pela professora Chiara e pelo professor Hadson de Sousa. Os espetáculos serão realizados no histórico “Teatro José de Alencar” e no “Centro Cultural Dragão do Mar”. A professora Chiara, feliz por mais este festival no currículo da Academia, agradece a dedicação dos bailarinos(as) e o apoio incomensurável dos pais, mães; que além de patrocinadores, irão aplaudir nosso trabalho em Fortaleza. “Realmente sou muito grata a Deus e a todos que compõe a nossa Academia...”, diz.

  
O FENDAFOR é uma realização da A.C.C.N. Lima Produções, através do Grupo BCAD. Tem o apoio Institucional do Fórum Estadual de Dança do Ceará e dos Grupos Permanentes de Dança do Ceará – GEPEDANCE, da Comissão de Dança do Ceará e direção e Coordenação Geral da bailarina Janne Ruth. Mais uma vez Capanema será exaltada pela arte da dança, em grande estilo: A Academia de Dança “Chiara Rêgo”. 
(Hadson de Sousa)    

quarta-feira, 8 de junho de 2011

POR UM TEMPO DE LUZ...


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Vou me deixar levar, como nunca dantes, pelos moldes desse gênero que aprisiona a minha vontade de representar e a reduz à simplicidade; às vezes ao mero acaso. Aos fatos mais insignificantes do cotidiano, talvez. Cotidiano!!!!! Palavrinha que causa repulsa em alguns e vontade de viver noutros. E é justamente quando o cotidiano é surpreendido pelo novo, que será engolido logo depois por ele, que irrompe esta vontade... Vontade de...
Então, para iniciar um bate-papo, vou começar por algo visível, exterior, bem cotidiano. Não pelo afã de tornar visível o que não era invisível. Mas para trazer a luz o que, por anos, esteve à sombra e foi negado pelo descaso e desinteresse próprios da politicagem...
Outro dia passeando à noite com minha família pela histórica Avenida Barão de Capanema, algo iluminado atraiu nossa atenção. De fato, foi a luz que fez com que nossos olhos fixassem aquela paisagem, antes ignorada. Apesar de ter mais de uma década entre nós estava totalmente abandonada pelo descaso social. Não deu para conter os comentários. Sabem quando uma criança vislumbra algo que não é novo, mas está de cara nova? Então, espantados, não apenas com a luz, em coro dissemos: OOOOHHHH!!!! Soou aproximado ao Aleluia de Handel... Eu particularmente estava diante do inacreditável, da concretização de um sonho engasgado de muitos capanemenses. Não acreditava que no meio deste Mato Azarado irromperia um dia o Campus da Universidade Federal do Pará.  

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Minha memória descrente acionou vários recortes abandonados... Foi impossível não lembrar os anos de escuridão que vivi no antigo (e posso usar este termo com convicção e alegria agora) Núcleo da UFPA/Capanema. Quando fui aprovado no curso de Letras (Noturno) ficava imaginando, como seria passar quatro anos num ambiente inóspito, hostil, mítico, totalmente descontextualizado de um universo acadêmico; que surge com as ideias do pensamento racional.
A turma de Letras-2006 teve de transformar o famigerado Núcleo (hoje o iluminado Campus) num universo acadêmico. Um espaço, totalmente, anti-universitário, numa universidade. No universo das letras. Fizemos daquela sala hostil, um espaço dialético e dialógico: Um lugar de produção de conhecimento; e não nos comportamos como meros expectadores. Fomos atores do espetáculo de nossa formação acadêmica. Ressuscitamos a Arcádia grega onde os deuses reuniam-se para produzir conhecimentos; ressignificamos, ou reafirmamos o rótulo de academia. Pena que estas transformações não se estenderam ao espaço físico: nossa voz clamava num deserto de recursos básicos, como uma lâmpada para iluminar a sala de aula.
O que os professores, advindos de outros campi da UFPA, nos diziam em uníssono e, alguns colegas desconfiavam, constatamos, hoje, que era verdadeiro. Não fomos graduandos passivos... Não saímos ilesos da academia, embora lesados... Com palavras aspeadas reitero: “Vocês são uma tribo, não de um chefe, mas de vários caciques...” (declarou, emocionado, o professor Francisco Pereira do campus de Bragança). É, dedicamo-nos muito... Não fazíamos o que nos delegavam, não nos conformávamos com a caótica situação do antigo núcleo. Com a irracionalidade tornada política, antidesenvolvimentista. Transcendemos esse determinismo político atroz; pagamos, algumas vezes, um preço alto por isso... Quase éramos exilados para o campus de Bragança.
Assim, apesar das reivindicações, protestos e manifestações, carecíamos, sobretudo, de um ILUMINISMO (longe de mim, querer esvaziar este signo petrificado na história ou atribuir sentidos outros)... Necessitávamos de uma revolução neste âmbito. Sair do caos da falta de expressão e visibilidade. Quando eu comentava com alguém que estava cursando Letras na UFPA/Capanema, as pessoas, espantadas, diziam que não sabiam da existência desta instituição no nosso município. Quando eu dizia que funcionava num prédio na Av. Barão de Capanema, aguçava ainda mais a curiosidade, pois eram inevitáveis descrições do tipo: “lá naquele prédio abandonado, cheio de mato...”. Na época da eleição para reitor decidimos, esperançosos, apoiar o Professor Carlos Maneschy, sob a condição de que ele voltaria o olhar para a UFPA/Capanema.     

Hoje, pelas mãos do professor Álvaro Lobo, Capanema está sendo reembolsada de um sonho roubado... Sonho de muitos jovens que tiveram que sair daqui para estudar e, de tantos outros, que por serem de famílias com situação financeira módica, abortaram o sonho por falta de oportunidade. O revés da história ofusca-se com a luminosidade de um presente concreto que quer subsumir este pretérito injusto. Pois o novo momento desta instituição em Capanema não comporta essa faceta da temporalidade. Entretanto torna visível um desejo estancado, sem satisfação, que jazia na memória de muitos e, agora ressuscita, apesar do breve tempo e dos parcos investimentos, por parte da atual gestão municipal, cheio de “memória de futuro”.
(Hadson de Sousa)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

MÃES: SERES EXTRATERRENOS...

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É... gerar, dar a luz a outro ser, realmente não deveria ser tão simples assim... Mas tornou-se algo comum... Em especial as gestações indesejadas... Sobretudo, refiro-me àquelas em que crianças geram crianças. E depois, quem é que fica com a imagem de mãe, nestes casos? Como discuti em outro texto, a dona ciência já fez sua parte em exaltar, classificar, estes seres que geram de SEXO FORTE. Por outro lado, este feito as torna seres comuns... Daí, independente da capacidade de gerar, elas podem ou não receber o título de MÃE... Porque, apenas parir virou uma ato banal. Tanto que muitas mulheres parem e jogo seus filhos no lixão, em terrenos baldios, os deixam nas esquinas da vida... Ou procuram outra forma de dar cabo daquele ser Estranho que, talvez, as ensinasse a AMAR... E não é tão simples assim... Uma vida talvez seja pouco.


Hoje, com a transmutação de tudo, há inúmeras maneiras de gerar/ter um filho; por inseminação artificial, adoção e outras mais. Independentemente disso, numa gravidez, num processo de reprodução artificial e/ou na adoção no mínimo três seres são gerados. Primeiro um bebê, caso contrário não poderíamos considerar uma reprodução desta natureza; segundo um pai; e terceiro uma MÃE... Nestes últimos é que residem alguns problemas. O momento mais complicado do parto, ou de outro processo como este, é parir um pai, uma MÃE.

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Certa vez uma amiga, que apesar de ter dois filhos adolescentes, disse-me que “buscava” ser MÃE – com tudo que esse título implica. Fiquei pensativo, confuso, com tamanha clarividência... Quando nasceu meu primeiro filho, eu e minha esposa encontramos com este SER EXTRATERRESTRE, não por acaso, e ela com plena sapiciência nos deixou, novamente, uma grande reflexão... Relatou com muita suavidade que o processo que estávamos vivenciando era uma experiência dual, paradoxal, nada telúrica. Um ser Estranho, que não conhecíamos, entra em nossas vidas e nos ensina a amá-lo, quando estamos dispostos... Ela, em tom de brincadeira, todavia falando sério, nos furou: Não me digam que já o amam verdadeiramente, porque isso é papo furado...  

MÃE do Perpétuo Socorro
Fiquei letárgico por alguns instantes... Pensei: Toda aquela preparação para receber este ser Estranho, arrumar o quartinho, comprar os objetos necessários etc. etc. etc. não é nada diante do exercício diário que teremos que praticar para sermos considerados pais, mães: PÃES. Naquele momento extraordinário pensei, também, na minha AMADA MÃE, Maria do Socorro, que assim como tantas Marias, acolheu/atendeu o clamor, o socorro, de quatro Estranhos, dedicou sua vida e aprendeu a amá-los, incondicionalmente. Por isso AMADA MÃE...


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Decidiu ser um EXTRATERRESTRE, pois se dispôs a parir todo santo dia. A exercer a tarefa árdua de NASCER, AMAR, SOFRER e MORRER com e por seus filhos. A ultrapassar a finitude de seu corpo frágil – feito de pó – que, apesar de comportar um sexo forte, necessita buscar forças etéreas para ser esta MÃETRIZ, disposição que transcende o corte umbilical. Ponto de chegada, de partida e de eterno retorno. Tudo isso demanda, realmente, um agir moral incomum. Atitude ética originária... A ciência consegue brincar de deus e criar filhos in vitro, porém está longe de reproduzir MÃES de proveta. MÃE não é uma questão de decisão: “querer ou não querer?”. Mas ação e doação diária para constituição do SER.

(Hadson de Sousa) 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O MELHOR AMIGO DO HOMEM...


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Antes de discordar, veementemente, fiz inúmeras análises e reflexões. Não é o caso de quere ser do contra. Sei que ao ler o título, os senhores pensaram logo no “cão fiel”... Pois não me refiro a este animal que a cultura pet shop introjetou nas nossas mentes como o melhor amigo do homem. Até fiz algumas experiências, mas não consegui tê-lo como tal. Cheguei à óbvia constatação de que ele é apenas um “animalzinho”. E, às vezes, por vários motivos, revolta-se e rompe a amizade imposta de forma drástica, nada convencional. Daí, para melhor amigo perde-se muita coisa pelo meio do caminho. Cuidado: cão bravo!!!



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Tudo bem!!! Há quem confie mais "no amigo fiel" do que nos seres que se dizem humanos. Todavia, projetam no bichinho características que gostariam de encontrar nas pessoas. Ou seja, no fim das contas personificam o bicho e ele passa a fazer parte da família: Oi meu bebê, cheguei!!! Filhinho, mamãe/papai tava com saudades. O cão, claro, não entendendo nada, balança o rabo, pula e late feliz da vida... Conheço várias histórias, nada de cão, de deixar os cabelos da careca em pé. Conheci um que só dormia se ligassem o condicionador de ar... É mole??? Sei de outro que adoece com saudades do dono; chora; quer atenção; sente ciúmes... Exigente esse amigo, hein?

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Depois dessas análises, insatisfeito inclusive com o custo e o trabalho que dá esse "melhor amigo", arranjei um usurpador... Supriu, com certeza, todas aquelas lacunas. Nomeei o livro para assumir este posto. Ah! Este sim deveria receber esse rótulo. Pois é um amigo para todas as horas. E tem pra todos os gostos... Alguns cabem até no nosso bolso, literal ou metaforicamente falando. Em caso de contenção de despesas, sabe, podemos pedir emprestado por tempo ilimitado. Porque, quem empresta é que não presta. Porém, neste caso faz um grande favor, caridade... Enfim, não ficaremos abandonados nunca. Nem as crianças mais ingênuas passam despercebidas, elas sabem que ele porta mais que uma mensagem, dele evola mistérios... Por isso, aguça a curiosidade até de quem precisa de terceiros para se relacionar com ele.

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O livro é realmente um grande amigo, não o melhor... Na companhia dele nunca nos sentiremos a sós; basta lê-lo para comprovar. Mesmo no total silêncio, é possível ouvir várias vozes. Alguns são uma verdadeira Babel, uma confusão organizada – ele nunca subsume nossa voz. Mesmo que discordemos dele permaneceremos indeléveis. Ele não nos impõe nada. Caso ele exceda os limites, simplesmente podemos fechá-lo e pronto; problema resolvido.

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Em contrapartida, não há como ficar imune após um relacionamento com um amigo dessa natureza. Querendo ou não, aceitando ou não, não seremos mais os mesmos, nem ele também. Será sempre uma experiência transformadora... Ambos sairemos lesados... E, perda é ganho. Ele amplia nosso olhar, maximiza os detalhes que fingimos não ver – nos faz enxergar a vida de um ângulo bem mais panorâmico. No filme “Abril Despedaçado” (dirigido por Walter Salles), há um exemplo formidável. O filme, uma interpretação do livro homônimo (de Ismail Kadará), apesar de enfocar a ruptura de uma tradição violenta, comum no nordeste do Brasil, mostra, transversalmente, o fascinante relacionamento do garoto “Pacu” (Ravi Lacerda) com um livro. Ambos consubstanciam a quebra de convenções, a liberdade. O “minino”, morador do “Riacho das Almas” – de fotografia desértica, monocolor, sonha em ver o mar e encontrar com a Sereia encantada.

"Pacu" - Fotograma do filme "Abril despedaçado" 

"Pacu" realiza o sonho quando ganha de presente, de andarilhos, um livro. O “minino”, sentado embaixo de um tronco de árvore seco, na companhia do livro, evade-se daquela paisagem e viaja até o mar para encontrar sua Sereia; o pai (José Dumont) priva o garoto de sonhar acordado e o proíbe de ficar com o livro (uma das cenas mais emocionantes do filme). O livro sim é o melhor amigo do homem, transcria nossa realidade e a torna suportável. Em retribuição, somos responsáveis por atualizá-lo, ressignificá-lo. Ele é um eterno dependente da nossa amizade leitora. Portanto não há autossuficiência nesta relação, necessitamos um do outro: Coexistimos. Coconstruímos e coescrevemos nossa história... 

(Hadson de Sousa) 

sexta-feira, 18 de março de 2011

MULHER FORMOSA...

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Somos todos sabedores das infindas idiossincrasias delegadas culturalmente às mulheres. A mais ridícula de todas: mulher é sexo frágil... Não acredito. Ainda bem que já comprovaram, cientificamente, o contrário. É, na Indonésia os bebês que nascem do tamanho da palma da mão, somente os do sexo feminino sobrevivem. Os homens, coitados, nem o rótulo de Brutus consegue mudar essa história. Aqueles que se consideram sexo forte, relaxem e concebam... Ou então, tentem contrariar a dona Ciência. Nasçam do tamanho da palma da mão pra ver!!! Não adianta. O tempo em que a casa só tinha um esteio, já se foi. Em muitas, hoje, elas são o alicerce, o esteio e o telhado.
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A velha concepção de sexo frágil criou muitas crostas feministas. A cantora Marina Elali interpreta uma música (composta por Alexandre Leão e Manuca Almeida) que, apesar de ser uma bela canção, expressa muito bem a cosmologia imposta ao universo feminino: MULHERES GOSTAM. De flores, de shampoo, de espelho, de corpo nú; de mulheres, de batom, de meias; de homens que não perguntam se foi bom; de gastar, gastam o tempo, não gostam de ver o tempo passar; mulheres ainda querem casar. Analiso como uma tarefa arriscada, na atualidade, tentar fazer liames entre gostos e sexo. Daí o velho ditado: Gosto e sexo, cada um tem o seu... Melhor dizer sexo. Concordam?
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Porém há no musipoema um detalhe importantíssimo que clarifica o grande diferencial entre os sexos. Talvez seja isso que me faz concordar em gênero, número e caso com a tese da dona ciência: MULHERES GERAM. Neste ponto sou Neandertal. É isso mesmo: sou cavernoso... Nossos parentes das cavernas devem ser considerados Homo sapiens. Não pelo fato de que eram mais fortes e tinham um cérebro maior. Mas por terem conseguido identificar o grande diferencial entre os sexos. Veja, dentre as heranças deixadas por eles, há uma relíquia que chama atenção. Uma escultura feminina nomeada pelos antropológos de “Vênus”: Mulher formosa...
Vênus de Willendorf
Uma justa homenagem às mulheres, petrificada e perpetuada na história. Nossos ascendentes das cavernas, exímios observadores,  esculpiram a mulher no estado interessante. As formas são avantajadas. Seios e ventre dilatados. Supõem-se que os pioneiros na arte de esculpir tinham certa curiosidade pelo período gestacional. Gerar, dar a luz a outro ser: feito fantástico... Inexplicável não somente àquele época, pois ainda guarda mistérios. 
Apesar das "limitações" técnicas, o Neandertal soube, inteligentemente, negritar o que realmente difere estes seres maravilhosos que arriscam a própria vida para perpetuar a espécie. Elas ultrapassam a barreira do humano para gerar. Buscam força sobrehumanas. Como os sábios da caverna quero homenagiá-las, sempre... Não pelo sangue do massacre de 08 de março, mas pelo sangue em prol da vida... Não porque encurtaram os vestidos e vestiram calça, blazer; não porque provaram que são inteligentes; não porque subiram nas ribaltas; não porque assumiram postos outrora ocupados somente pelo sexo masculino - frágil; não porque puderam expressar seus desejos reprimidos; não porque assumiram a presidência da República. Não, não, não! Mas, simplesmente, porque são MULHERES, SEXO FORTE...
(Hadson de Sousa)