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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

VÁLIDO ATÉ...

Quase todo produto costuma ter uma data limite que determina o tempo de seu uso, consumo, entre outras finalidades a que se destina. Alguns fabricantes figuraram este prazo por pura precaução. Medo das penalizações em caso de danos causados ao consumidor distraído, contudo atento/sedento por uma boa indenização: MELHOR CONSUMIR ATÉ... Outros, para reforçar a qualidade, estampam nas embalagens: 18 Anos; Desde 1900; Safra de 1911. Há casos, também, muitos, de produtos que duram até se acabar.  Neste sentido, não se pode vaticinar a durabilidade deles. Sabe aquela máxima: QUE SEJA ETERNO ENQUANTO DURE... Em tempos de DESCARTÁVEIS esta filosofia se faz mister. O consumidor dos produtos da indústria cultural adotou a ideologia do CARPE DIEM: aproveite o instante. Use e abuse, sem pensar no amanhã. Amanhã pode ser o indesejado VÁLIDO ATÉ...


O homem, plagiando a natureza, forjou prazos, ciclos, para suportar o peso da existência, da ideia de viver inexoravelmente o hoje. (Para obter lucros, também. Sim!). O presente comporta a ideia do passado e do futuro, pois o ontem foi um hoje e o amanhã o será também... (Então, a eternidade é o estado das coisas neste momento?). O produto TEMPO, da mesma forma, tem validade, porém diferenciada dos demais produtos. Apesar de ter limites bem definidos, em quase todas as culturas ele é imperecível. Daí o caráter cíclico: o término implica o (re)começo. As vinte e quatro horas do dia, os dias da semana, os meses do ano. Os anos, as décadas, os séculos... O tempo cronológico, senhor do destino, é responsável por tudo isso. Limites que aprisionam/libertam o homem na/da masmorra da existência. Alguns já estão contando os segundos, minutos, horas, dias para o fim deste ano; outros lamentando. Momento de fazer as promessas voláteis de vida nova. Como se após às 23:59m do último dia do ano o HD da memória, responsável por acumular o que nomeiam de fatos, experiências, esvaziasse-se numa autoformatação automática e programada. Tudo zerado, às 00:00h, pronto para novos downloads, desejados e indesejados, VÁLIDOS ATÉ...  


Com a validade do produto “ANO 2010” prestes a expirar, surgem no mercado outros produtos esquecidos pelos consumidores. Todo ano é assim. No mês de dezembro vários estabelecimentos expõem, mesmo com um prazo de validade brevíssimo, os tão procurados fetiches das festas de fim de ano: árvores de SENSIBILIDADE; essência de AMOR ao próximo, vinho de SOLIDARIEDADE; frutas de ABRAÇO cristalizadas; e panetone com recheio de PERDÃO. Estes produtos ficam escassos nos outros meses do ano e geram muita CARÊNCIA. Quem os compra ou recebe de presente deve consumi-los, compartilhá-los, partilhá-los, degustá-los e saciar-se à base de LÁGRIMAS. É!, a ingestão, com ou sem moderação, destes produtos deixa as glândulas lacrimais frouxas e qualquer situação adversa ativa o sistema lacrimal; por este motivo, nesta época do ano, é um chororô só. Para chegada do novo ano, não esqueça de comprar o champanhe de PAZ. Se esta bebida preciosa desaparecer das prateleiras, faça um esforço com o genérico “Sidra”. Não esqueça, tudo isso espocará e sumirá junto com a fumaça dos fogos de ALEGRIA. Agora só no vencimento do “ANO 2011”, para quem estiver VÁLIDO para vida...              
           

sábado, 4 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMOR À DANÇA


     

















A Academia de Dança “Chiara Rêgo” iniciou suas atividades em Capanema há mais de duas décadas e, desenvolve técnicas que vão do Balé Clássico ao Folclore brasileiro. Desde 1993 realiza um grande festival de dança, que faz parte do calendário de eventos do município e é esperado por um público cada vez maior e, apreciador da arte da dança.

A Academia “Chiara Rêgo” tem como filosofia: difundir a arte da dança, e seus benefícios, para todos, seja nas aulas ou em apresentações. Para tal, costuma fazer apresentações em teatros, escolas, praças, Bancos, shoppings, programações culturais e em outros “palcos alternativos” do nosso estado. Também desenvolve um trabalho de integração social em parceria com a Câmara dos Dirigentes Lojistas – CDL-Capanema – e Associação de Integração Social Sebastião Ribeiro da Silva – AISSERI – ministrando aulas de balé clássico para mais de trinta crianças do bairro Almir Gabriel.





A Academia “Chiara Rêgo” já deixou sua marca em grandes festivais, realizados no nosso estado: FIDA – Festival Internacional de Dança da Amazônia, onde recebeu várias premiações – 1º lugar Balé Clássico Juvenil, 3º lugar Jazz Infantil (único grupo classificado), 1º lugar Jazz Sênior etc.; EIDAP – Encontro Internacional de Dança do Pará obteve 3º lugar Balé Clássico Juvenil, 3º lugar Jazz Júnior, 3º lugar Jazz Sênior (único grupo classificado), 1º lugar “Prêmio Novos Talentos” Balé clássico Juvenil, 1º lugar Solo Balé clássico Júnior e 3º lugar Jazz Júnior (único grupo classificado). Este ano a Academia recebeu mais alguns louros, pela brilhante participação no DANÇA PARÁ FESTIVAL 2010. Desta vez 2º lugar na modalidade Sapateado Tap juvenil e 2º lugar Jazz adulto. A professora CHIARA RÊGO presenteou-nos com o prêmio de COREOGRAFA REVELAÇÃO do evento.

Este ano a Academia realizará a 18ª edição do tradicional Festival de fim de ano. No dia 12 de dezembro, Capanema será palco de um grande espetáculo (duas horas de muita dança com mais de 80 bailarinos) coreografado e organizado pela bailarina revelação do DANÇA PARÁ 2010. “Ambientes Diferentes” é a temática da nova montagem, uma mesclagem da dança com diversos ambientes, reais e/ou fictícios, criados por nossa pluralidade cultural. Estamos inovando a cada espetáculo, com o objetivo de satisfazer cada vez mais o público, amante da arte da dança, comenta a professora Chiara. A 18ª edição do Festival será realizada no Auditório Frei Leônidas Vavassori, ao lado da igreja matriz. Capanema dá dança: Academia Chiara Rêgo.

sábado, 13 de novembro de 2010

E VÓS, QUE IMAGENS VENERAIS?

"A CRIAÇÃO DE ADÃO" (1511) - MICHELÂNGELO BUONARROTI 


Parece injusto, ilógico, incoerente, todavia para nós cristãos somos a imagem e semelhança de DEUS. Não meu pai do céu, não posso acreditar... No Livro Sagrado figura a seguinte profissão: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra”. Então, se somos à imagem do criador, somos imagens. Por extensão, somos veneradores e venerados. Mas que imagens venerais? As imagens prendem nossa atenção... Desperdiçamos horas diante de uma caixa de imagens, todos os dias... Obviamente, prestando culto, veneração, consumindo os ícones da indústria cultural.  Preocupamo-nos, também, demasiadamente com a imagem refletida no espelho (culpa dos portugueses que nos deram espelhos e vimos um mundo idealizado e doente). Se pensarmos nos adoradores da auto-imagem, quantos pecados... Afinal, somos uma sociedade narcísica. Entretanto o texto bíblico não refere à estas imagens. 

Do caos, fez-se a terra informe. E, Deus deu forma à terra, às coisas, e a tudo que nela encerra.  A ideia de forma, imagem, principia toda a cosmogonia da criação... O homem (imagem e semelhança de DEUS) esqueceu, decerto, que reinaria sobre tudo, menos sobre os outros homens... Daí, impondo a própria imagem, ele construiu impérios de areia. O homem resolveu brincar de deus. Nessa brincadeira ele criou uma espécie de religião. Tornou-se mito venerado por um discurso místico mantenedor de suas potencialidades forjadas, do seu poder (discurso efêmero). E a imagem tem um papel crucial neste processo: a imagem é signo que remete diretamente ao significado, mesmo que falso.


"FACES DA MESMA MOEDA" - HITLER E SADDAM

À imagem performática, inorgânica (e não a que se assemelha ao DEUS), na contemporaneidade, podemos atribuir o mesmo sentido de religião. Há uma espécie de culto, veneração, constante e (in)consciente à imagem. Dessa forma novos mitos, ícones planetários, surgem todos os dias e arrastam multidões para cultuá-los em palcos. Outros, de tanto insistir, impõem suas imagens e deixam nossas retinas fatigadas, ofuscadas, verdadeira cegueira social; pior, quase sempre não pensamos nem refletimos os significados reais a que elas remetem – auto-alienação. Dois exemplos ilustram claramente este processo: Adolf Hitler e Saddam Hussein. Ambos criaram uma projeção tão forte da auto-imagem que construíram impérios aparentemente indestrutíveis. Nestes impérios, onde um homem reinava sobre os homens. Todas as atividades, comemorações cívicas, tudo se tornava motivo de culto, de exaltação às imagens do deus-homem. Hoje os outdoors são os santuários, as vitrines, onde os deuses despóticos erigem suas imagens. Os transeuntes são os devotos e, se entregam a veneração incondicionalmente, sem nem avaliar se o santo é "do pau oco" ou não.


 Vivenciamos, hoje, esse tipo de ditadura deliberada da imagem? Temos prestado culto a que imagens, ultimamente? Que imagens foram/estão projetadas nas mídias de nossas cidades?... Pena que a grande maioria dos seres “humanos”, que se dizem cristãos, não venera as imagens sagradas, aquelas que reportam a significados que são verdadeiros exemplos de entrega, renúncia, resiliência, resignação, perdão, amor ao próximo, FÉ... Imagens que nos fazem repensar/refletir nossas práticas. Paradigmas que consubstanciam a ideologia cristã. Santos signos, carregados de sentidos... Não imagens inócuas, vazias, estereotipadas, que não significam nada além da aparência mais exterior: “sepulcros caiados...”. Pois no interior só há putrefação... Entretanto, ratificamos que somos cristãos... Onde? Nos templos... Quando? Quando nos é conveniente... 
(Hadson de Sousa)


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

GOSTOSA CAÁPANEMA DE OUTRORA...


GOSTOSA CAáPANEMA DE OUTRORA...


Não podemos voltar ao passado para reviver, contudo nossa mente tem o poder de reconstruí-lo... Mesmo que implique em releituras nem sempre tão autênticas. Muitas vezes, isto se torna um fato indesejável. O universo onírico, também, possibilita-nos uma viagem e rompe com as marcas da temporalidade, fazendo-nos fugir desta perene certeza de que vivemos sempre e exclusivamente no presente... É no mundo dos sonhos, na obra “Belém – Capanema”, da autora Marta Navegantes, que podemos reviver uma Capanema que não existe mais.

Uma impossível viagem de regresso a um universo que se transformou pela ação dinâmica do tempo. Mas que na obra torna-se possível, pois a narrativa-documentário é composta a partir de uma viagem “real”, com saída de Belém com destino a Capanema (com um detalhe: “por dentro”, como se dizia antes). Contudo, isso é apenas pretexto para a viagem saudosista e surreal com destino a Capanema de lendas de mata caá e caças panemas. Há, portanto uma meta-ficção. Ou seja, a narrativa desta obra cria uma realidade ficcional e desemboca em outra, ficcional também. Assim o leitor é convidado a reviver uma gostosa Caápanema de outrora, com suas ilustres personas/personagens: O Navegantes, Dona Maroca, Izaura das flores, Zé Correeiro, Dona Luizinha e Seu Neco, Zé Alfaiate, Raimundo pau-velho, Dr. Roberto, Dr. Jorge, Joãozinho Wanderley, Hugo Travassos, Irmã Terezinha, Irmã Clementina, Padre Sales e tantos outros...


Uma viagem, permeada com poesia crítico-reflexiva, para a Capanema em pleno processo de urbanização: a mata azarada dá lugar “ao concreto civilizatório”. A Capanema desfolhada Sem murucututu, sem matintapereira, / sem riacho dourado, sem cheirosa açucena, / Foi ficando sem graça, sem eira nem beira, / Capoeira sem caça, foi ficando caá-panema. A Capanema da igrejinha humilde e aconchegante, mais conhecida por Paróquia de Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, que guardava em sua estrutura e em tudo o que rodeava, o suor e os sonhos de boa parte da acanhada população. A Capanema do confidente coreto cor-de-rosa da praça da igreja e, das noites do Arraial; onde ricos e pobres participavam do festejo sem o preconceito do ter e não ter. A Capanema da Estação do trem no coração da cidade: Avenida Barão de Capanema.


Enfim, “Belém-Capanema” é um retrato feito de palavras e revelado com muita sensibilidade, trabalhado à pena, carregada de emoção. Para alguns leitores que lá se encontram ou encontram seus familiares uma catarse interior, uma viagem, um desembarque na estação. Para outros, a oportunidade de conhecer nossa cidadezinha com cheiro de mato, mas sem a cor cinza e aquele cheiro desagradável que anuncia a chegada na cidade hoje... A Capanema como desabafa a autora: Quem dera não fosses hoje / tão em desenvolvimento, / tão mais dura, outro elemento, / tão concreta, sem calor para corresponder.     

sábado, 30 de outubro de 2010

MATO AZARADO DAS ARTES


MATO AZARADO DAS ARTES

 (Manifesto Pela Cultura Artística)


PRELÚDIO
Uma cidadezinha qualquer, sim... Mesmo sendo a minha, a sua, a nossa Capanema. Além de “zinha”, é revestida pela massa cinzenta disforme que a rotula: “terra do cimento”. O concreto frio, grotesco, que soterrou o Ouricuri, lhe dá uma fachada de polis. E, a analogia capitalista e esdrúxula do ícone londrino, que revestiu impiedosamente o antigo relógio da praça, um toque cosmopolita. Mas não importa. Tantas coisas foram e são suprimidas (se pela modernidade, a cidade ganharia algo com isso, claro...). Para os capanemenses que têm quase a mesma idade da “cidadezinha qualquer” resta-lhes as imagens efêmeras da memória. Para a atual e futuras gerações ainda resistem teimosamente, como a palmeira da praça, algumas fotografias que perpetuam àquelas imagens da Capanema que jazz, sem deixar vestígios. Museu: Gaveta de Guardados... “Só me interessa o que não é meu”. Lei dos homens de parca inteligência. Resistiremos às insídias da ninfa Calipso?  

I ATO
Uma cidadezinha qualquer, sem expressividade... É esta a impressão arquivada pelos visitantes que não estão piscoadaptados com as paisagens acromáticas engendradas pelo cimento amorfo; não é só nossa mata que é verde-cinzento. Pensemos em outras cidadezinhas que não têm a cor do concreto, entretanto são mais concretas que a “cidadezinha qualquer”. Despontaram no cenário nacional e internacional como as grandes cidades de pedras. Salve a terra da marujada; a terra do carimbó; a menina morena, flor do grão Pará; a terra da farinha de tapioca; a terra do carnaval folclórico; a terra do festival do carimbó; a terra da festa da pororoca; a terra do sairé; a cidade dos ipês e da melhor quadrilha junina do Brasil; a terra da festa do mingau; a terra da festa do açaí etc. etc. etc. E a terra da farinhada?! Alguém já ouviu falar?! Nem em Kitsch (subproduto)  nossa arte transformou-se, todavia somos concretistas. Caímos nos braços de Calipso...  

II ATO
Os ícones da cultura artística são responsáveis, em muitas realidades, pelo desenvolvimento e expressividade do local. Muitos municípios, estados ou países são vendidos para mundo inteiro por causa de sua produção artística. Até quando o “Mato Azarado” ficará no anonimato? Parece que Cabral se esqueceu de descobrir estas terras Panemas... Até quando a cultura artística, os artistas da “cidadezinha qualquer” serão ovacionados por aplausos alheios, em palcos alheios, em terras alheias?... Até quando teremos que sacudir a poeira de cimento dos sapatos e exportar nossa arte, que é realmente concreta, sem verticalizar os louros? Até quando não teremos e/ou receberemos reconhecimento neste “Mato Azarado”, pela nossa arte que conquistou o Brasil, o mundo? Sabemos que santo de casa não faz milagre, mas continua fazendo arte... Até quando não teremos espaços que comportem nossa arte gigantesca? Nossa cultura artística está estacionada; pronta para partir. Não podemos reconstruir o passado, poderíamos construir o presente. Contudo, sucumbimos ao encanto de Calipso, não resistimos. Roda, roda, roda à toa...

CODA
 Poderíamos ser a terra do forró; a cidade das quadrilhas juninas: Os caipiras, Explosão, Sensação, Emoção etc.; a terra da vaquejada: o nordeste no Pará; herança atávica dos nossos ascendentes. Mas somos apenas um pedaço de terra no nordeste paraense. Poderíamos ser a terra da arte suprema, declamada por vozes ilustres, premiadas: Estélio, Zé Raimundo, Paulo, Lurdinha, Telma, Leal, Socorro e tantos outros. Poderíamos ser a terra dos tapetes de serragem: Corpus Christi (arte e fé). Poderíamos ser a terra do maior teatro de arena do estado: Paixão de Cristo - ELCAP. Poderíamos ser a cidade de Emmanuel Nassar, famoso artista plástico, desconhecido dos seus conterrâneos, claro. Poderíamos ser a capital paraense da dança: do carimbó, do boi-bumbá, da marujada, da dança de rua, do balé clássico da Academia de Dança "Chiara Rêgo" etc. etc. etc. Poderíamos ser a terra da melhor banda fanfarra do Brasil: CSA. Terra da música erudita e popular. Porém só sabemos dançar ao ritmo de Calipso, pois caímos nas graças de Calipso. Não resistimos ao encanto de Calipso. Calipso...  

sábado, 16 de outubro de 2010

EDUCAÇÃO NA “SOCIEDADE DO CONHECIMENTO”

O LAVRADOR DE CAFÉ - CÂNDIDO PORTINARI (1934)
São incomensuráveis as transformações sociais ocasionadas pelo conhecimento, no sentido latu da palavra, desde as primeiras organizações humanas, sociedades; essas transformações estenderam-se à todas as áreas e setores. Assim, o homem organizou-se em grupos mutáveis. Primeiro, viemos de uma sociedade agrícola que se transformou em uma sociedade industrial – “... a tecnologia substituiu a sociedade agrária pela sociedade industrial”. Por conseguinte, vislumbrou-se a “era dos serviços” ou “pós-industrialização” – divisão das atividades econômicas em setores: primário (agricultura, pesca e mineração), secundário (indústria ou produção de bens) e terciário (comércio e serviços). Daí, desembocamos na “Era da Informação”, como denominam alguns pensadores. 


No entanto, o acelerado e desenfreado avanço técnico-científico, e as novas exigências da era digital, provocaram mudanças radicais em todos os setores da sociedade contemporânea. Por isso, a informação não deve ser priorizada em detrimento à produção de conhecimento. Cresceram os debates acerca da educação e as infindas “tecnologias da informação e comunicação” (TIC), visto que a educação deveria atender a demanda do contexto sócio, econômico e político do panorama em que está inserida. Destarte, sentiu-se necessidade de reformas no setor educacional e, em especial, na formação dos enunciadores responsáveis por intermediar os inúmeros saberes nos ambientes escolares – professores. Todavia, estas reformas restringiram-se à inserção das TIC’s nas escolas.


As mudanças na área educacional, visando suprir uma demanda tecnológica, descartaram a nova formatação social emergente: a Sociedade do Conhecimento. O professor Paulo Yazigi Sabbag (da Fundação Getúlio Vargas, autor de “Espirais do Conhecimento: Ativando indivíduos, Grupos e Organizações”) pondera: “Nessa nova sociedade, o maior valor é atribuído não à informação em si, mas à capacidade de um profissional de comunicá-la e de usá-la para a aplicação e o avanço do conhecimento e à capacidade de uma empresa de acumular capital intelectual”. Os futuristas que, no início do século passado, deram o “pontapé inicial” a essas mudanças ficariam, sem dúvida, “boquiaberta” frente à velocidade do mundo contemporâneo, principalmente, na produção de conhecimento (científico) em parceria com as novas tecnologias que, tornam o planeta minúsculo, quebrando fronteiras numa comunicação instantânea, num vaivém de informações: conhecimentos e culturas.

OPERÁRIOS - TARSILA DO AMARAL (1933)
As políticas educacionais, entretanto, são incompatíveis à nova formatação social. Nosso sistema educacional ainda está engajado na formação de profissionais, técnicos, empregados massificados e disciplinados – quase sempre pouco criativos e ou conscientes de suas potencialidades – para atender a Sociedade Agrária e Industrial, ao invés de produtores de conhecimento que supram a demanda da nova sociedade, onde as ideias é que importam. Elas são os patrões. As instituições de ensino não fomentam a refutação e/ou reflexão acerca dos conhecimentos produzidos pelas sociedades anteriores, para então, surgir novos conhecimentos. Desprezam o fluxo de informação que deveria ser transformado em conhecimento. Com isso, a educação fica a margem da acelerada e ilimitada produção de conhecimento, que caracteriza a contemporaneidade.

Enfim, diante destas perspectivas, preza-se por mudanças no âmbito educacional, tanto nos espaços físicos – escolas (com a inserção de mais aparatos tecnológicos) quanto no desenho curricular (dando um caráter mais transdiciplinar e produtivo) e, sobretudo, na formação dos educadores que atuam e/ou preparam-se para atuar neste setor. Se a compreensão e produção de conhecimentos não forem valorizadas na educação formal não poderemos redimensionar a sociedade a uma formatação satisfatória, menos marginalizadora, catastrófica e excludente.

sábado, 9 de outubro de 2010

SÓ DE SACANAGEM...

Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!





Por Elisa Lucinda
( Poeta, escritora, jornalista e atriz brasileira)







ASSISTA AO VÍDEO DA POETA:

http://www.youtube.com/watch?v=iTFPPgYj5uQ



sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ÀQUELES QUE EDUCAM...


             
             Dentre as reflexões e críticas do pensamento do educador Rubem Alves, acerca do processo ensino-aprendizagem, há duas bastantes ferrenhas ao atual panorama da educação formal no Brasil; numa coletânea de textos: “Conversas com quem gosta de ensinar”. A primeira diz respeito à dicotomia, engendrada por este autor, entre EDUCADOR e PROFESSOR. No bate-papo Sobre Jequitibás e Eucaliptos*, ele incita: “Educadores, onde estarão? Em que covas terão se escondido?”. E ratifica: “Professores, há aos milhares”. Esclarece: “... professor é profissão. Não é algo que define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança”. Rubem Alves explica que o Educador valoriza a relação horizontal com o aluno; não está numa sala de aula com o objetivo de ministrar uma “disciplina” (termo militar para este autor). Todavia para doar-se, ao outro na construção do conhecimento crítico- reflexivo - aprender mais que ensinar. “De Educadores para professores realizamos o salto de pessoa para funções”, reitera.


A segunda, que figura na conversa Sobre moluscos e homens*, realça que Há mais diferenças entre professores e Educadores que moluscos e homens. O Educador, análogo ao molusco, é um ser que pensa sobre o sentido da prática educativa, ou seja, produz, antes, a concha do conhecimento que irá acompanhá-lo, protegê-lo, na luta pela sobrevivência, numa perspectiva que vai além do ambiente educativo. Reflete sobre o “por que e para quê e o que ensinar?” e, não se submete à organização lógica do ensino, pautada em “diretrizes curriculares” modalizadoras, voltada para fixação de conteúdos necessários para uma avaliação tradicional ou exames, que brincam de mensurar a capacidade de memorização. A aprendizagem por meio da fixação tem prazo de validade, torna-se um conhecimento perecível. Com pouco tempo, o que foi “fixado” é automaticamente “deletado”. À voz do autor, “o aprendido é aquilo que fica depois que tudo foi esquecido”. Portanto, o conhecimento deve ser a concha que o nosso corpo, gelatinoso, produz para sobreviver.


Diante do exposto, faz-se mister refletir: as políticas educacionais são direcionadas aos professores e auxilia-os na profissão (professor: aquele que deveria professar) e na execução dos currículos, famosas “grades curriculares” que os aprisionam e da qual não querem se libertar (vítimas algozes). Como explica Rubem Alves, “É preciso mudar os sentimentos e as idéias na cabeça dos professores. Somente com uma transformação nos professores teremos uma transformação na educação”. Assim, seria de bom alvitre, de acordo com este autor, repensar o processo ensino-aprendizagem e, também, o papel de seu agente principal: o professor. Um profissional que, antes de qualquer coisa, precisa aprender a Educar (preparar para fora), amar seu ofício e seus alunos. Já que é difícil mudar o sistema educacional, pautado em dados estatísticos, o professor deveria buscar a “filosofia dos moluscos” e produzir a “concha” de Educador para, então, transformar sua prática e, consequentemente, o sistema educacional.            
(HADSON DE SOUSA)
* clique e leia os textos na íntegra:

SOBRE JEQUITIBÁS E EUCALIPTOS


"Educadores, onde estarão? Em que covas se terão escondido? Professores, há aos milhares. Mas o professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança. Profissões e vocações são como plantas. Vicejam e florescem em nichos ecológicos, naquele conjunto precário de situações que as tornam possíveis e - quem sabe? - necessárias. Destruído esse habitat, a vida vai-se encolhendo, murchando, fica triste, mirra, entra para o fundo da terra, até sumir.
E o educador? Que terá acontecido com ele? Existirá ainda o nicho ecológico que torna possível a sua existência? Resta- lhe algum espaço? Será que alguém lhe concede a palavra ou lhe dá ouvidos? Merecerá sobreviver? Tem alguma função social ou económica a desempenhar?
Uma vez cortada a floresta virgem, tudo muda. É bem verdade que é possível plantar eucaliptos, essa raça sem vergonha que cresce depressa, para substituir as velhas árvores seculares que ninguém viu nascer nem plantou. Para certos gostos, fica até mais bonito: todos enfileirados, em permanente posição de sentido, preparados para o corte. E para o lucro. Acima de tudo, vão-se os mistérios, as sombras não penetradas e desconhecidas, os silêncios, os lugares ainda não visitados. O espaço racionaliza-se sob a exigência da organização. Os ventos não mais serão cavalgados por espíritos misteriosos, porque todos eles só falarão de cifras, financiamentos e negócios.
Que me entendam a analogia. Pode ser que educadores sejam confundidos com professores, da mesma forma como se pode dizer. jequitibá e eucalipto, não é tudo árvore, madeira? No final, não dá tudo no mesmo? Não, não dá tudo no mesmo, porque cada árvore é a revelação de um habitat, cada uma delas tem cidadania num mundo específico. A primeira, no mundo do mistério, a segunda, no mundo da organização, das instituições, das finanças. Há árvores que têm personalidade e os antigos acreditavam mesmo que possuíam uma alma. É aquela árvore, diferente de todas, que sentiu coisas que ninguém mais sentiu. Há outras que são absolutamente idênticas umas às outras, que podem ser substituídas com rapidez e sem problemas.
Eu diria que os educadores são como as velhas árvores. Possuem uma face, um nome, uma "história" a ser contada. Habitam um mundo em que o que vale é a relação que os liga aos alunos, sendo que cada aluno é uma "entidade" sui generis, portador de um nome, também de uma "história", sofrendo tristezas e alimentando esperanças. E a educação é algo para acontecer nesse espaço invisível e denso, que se estabelece a dois. Espaço artesanal.
Mas professores são habitantes de um mundo diferente, onde o "educador" pouco importa, pois o que interessa é um "crédito" cultural que o aluno adquire numa disciplina identificada por uma sigla, sendo que, para fins institucionais, nenhuma diferença faz aquele que a ministra. Por isso professores são entidades "descartáveis", da mesma forma como há canetas descartáveis, coadores de café descartáveis, copinhos de plástico para café descartáveis. De educadores para professores realizamos o mesmo salto que de pessoa para funções. (...) Não sei como preparar o educador. Talvez porque isso não seja nem necessário nem possível... É necessário acordá-lo. E aí aprenderemos que educadores não se extinguiram como tropeiros e caixeiros. Porque, talvez, nem tropeiros nem caixeiros tenham desaparecido, mas permaneçam como memórias de um passado que está mais próximo do nosso futuro que o ontem. Basta que os chamemos do seu sono, por um acto de amor e coragem. E talvez, acordados, repetirão o milagre da instauração de novos mundos."
[ALVES, Rubem. Sobre Jequitibás e Eucaliptos. in: Conversas com Quem Gosta de Ensinar]


SOBRE MOLUSCOS E HOMENS

            
      
Piaget, antes de se dedicar aos estudos da psicologia da aprendizagem, fazia pesquisas sobre os moluscos dos lagos da Suiça. Os moluscos são animais fascinantes. Dotados de corpos moles, seriam petiscos deliciosos para os seres vorazes que habitam as profundezas das águas e há muito teriam desaparecido se não fossem dotados de uma inteligência extraordinária. Sua inteligência se revela no artifício que inventaram para não se tornarem comida dos gulosos: constroem conchas duras – e lindas! - que os protegem da fome dos predadores. Ignoro detalhes da biografia de Piaget e não sei o que o levou a abandonar seu interesse pelos moluscos e a se voltar para a psicologia da aprendizagem dos humanos. Não sabendo, tive de imaginar. E foi imaginando que pensei que Piaget não mudou o seu foco de interesse. Continou interessado nos moluscos. Só que passou a concentrar sua atenção num tipo específico de molusco chamado “homem”. Se é que você não sabe, digo-lhe que muito nos parecemos com eles: nós, homens, somos animais de corpo mole, indefesos, soltos numa natureza cheia de predadores. Comparados com os outros animais nossos corpos são totalmente inadequados à luta pela vida. Vejam os animais. Eles dispõem apenas do seu corpo para viver. E o seu corpo lhes basta. Seus corpos são ferramentas maravilhosas: cavam, voam, correm, orientam-se, saltam, cortam, mordem, rasgam, tecem, constroem, nadam, disfarçam-se, comem, reproduzem-se. Nós, se abandonados na natureza apenas com o nosso corpo, teríamos vida muito curta. A natureza nos pregou uma peça: deixou-nos, como herança, um corpo molengão e inadequado que, sozinho, não é capaz de resolver os problemas vitais que temos de enfrentar. Mas, como diz o ditado, “é a necessidade que faz o sapo pular”. E digo: é a necessidade que faz o homem pensar. Da nossa fraqueza surgiu a nossa força, o pensamento. Parece-me, então, que Piaget, provocado pelos moluscos, concluiu que o conhecimento é a concha que construímos a fim de sobreviver. O desenvolvimento do pensamento, mais que um simples processo lógico, desenvolve-se em resposta a desafios vitais. Sem o desafio da vida o pensamento fica a dormir... O pensamento se desenvolve como ferramenta para construirmos as conchas que a natureza não nos deu.

O corpo aprende para viver. É isso que dá sentido ao conhecimento. O que se aprende são ferramentas, possibilidades de poder. O corpo não aprende por aprender. Aprender por aprender é estupidez. Somente os idiotas aprendem coisas para as quais eles não têm uso. Somente os idiotas armazenam na sua memória ferramentas para as quais não têm uso. É o desafio vital que excita o pensamento. E nisso o pensamento se parece com o pênis. Não é por acidente que os escritos bíblicos dão ao ato sexual o nome de “conhecimento”... Sem excitação a inteligência permanece pendente, flácida, inútil, boba, impotente. Alguns há que, diante dessa inteligência flácida, rotulam o aluno de “burrinho”... Não, ele não é burrinho. Ele é inteligente. E sua inteligência se revela precisamente no ato de recusar-se a ficar excitada por algo que não é vital. Ao contrário, quando o objeto a excita, a inteligência se ergue, desejosa de penetrar no objeto que ela deseja possuir.

Os ditos “programas” escolares se baseiam no pressuposto de que os conhecimentos podem ser aprendidos numa ordem lógica predeterminada. Ou seja: ignoram que a aprendizagem só acontece em resposta aos desafios vitais que estão acontecendo no momento ( insisto nessa expressão “no momento” – a vida só acontece “no momento” ) da vida do estudante. Isso explicaria o fracasso das nossas escolas. Explicaria também o sofrimento dos alunos. Explicaria a sua justa recusa em aprender. Explicaria sua alegria ao saber que a professora ficou doente e vai faltar... Recordo a denúncia de Bruno Bettelheim contra a escola: “Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido o que eu deveria aprender – e aprender à sua maneira...” Não há pedagogia ou didática que seja capaz de dar vida a um conhecimento morto. Sòmente os necrófilos se excitam diante de cadáveres.

Acontece, então, o esquecimento: o supostamente aprendido é esquecido. Não por memória fraca. Esquecido porque a memória é inteligente. A memória não carrega conhecimentos que não fazem sentido e não podem ser usados. Ela funciona como um escorredor de macarrão. Um escorredor de macarrão tem a função de deixar passar o inútil e guardar o util e prazeroso. Se foi esquecido é porque não fazia sentido. Por isso acho inúteis os exames oficiais ( inclusive os vestibulares ) que se fazem para avaliar a qualidade do ensino. Eles produzem resultados mentirosos por serem realizados no momento em que a água ainda não escorreu. Eles só diriam a verdade se fossem feitos muito tempo depois, depois do esquecimento haver feito o seu trabalho. O aprendido é aquilo que fica depois que tudo foi esquecido... Vestibulares: tanto esforço, tanto sofrimento, tanto dinheiro, tanta violência à inteligência... O que sobra no escorredor de macarrão, depois de transcorridos dois meses? O que restou no seu escorredor de macarrão de tudo o que você teve de aprender? Duvido que os professores de cursinhos passem nos vestibulares. Duvido que um professor de português se saia bem em matemática, física, química e biologia... Eles também esqueceram. Duvido que os professores universitários passem nos vestibulares. Eu não passaria. Então, por que essa violência que se faz sobre os estudantes?

Ah! Piaget! Que fizeram com o seu saber? Que fizeram com a sua sabedoria? É preciso que os educadores voltem a aprender com os moluscos...

[ALVES, Rubem. Sobre Moluscos e Homens. in: Conversas com Quem Gosta de Ensinar]

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

VOTAR OU VOTAR? EIS A OBRIGAÇÃO...

 

No domingo subsequente, exerceremos a “democracia”? Nosso poder de escolha? Iremos por livre e espontânea vontade fazer valer nosso direito de votar e ser votado (no caso dos CÂNDIDOS)? Como discutido outrora neste espaço: “... nós, heróis idealizados desta pátria, temos nossos direitos políticos: além do direito de voto obrigatório em eleições (o direito de votar e de ser votado), também constituem direitos políticos o de voto (novamente) em plebíscitos e referendos, o direito de INICIATIVA POPULAR (escasso neste âmbito, nos dias atuais) e, o direito de organizar e participar de partidos políticos. Quanto nonsense... Nosso ‘... partido é um coração partido’. Como se não bastasse, há a hipótese de perda e suspensão de direitos políticos – ‘Quando a esmola é grande, o santo desconfia’. Salve a Democracia brasileira... DEMOcracia!!!???”


JEITINHO BRASILEIRO: NEODEMOCRACIA...

Neodemocracia brasileira: escolher e escolher...

Nossa lei eleitoral criou uma NEODEMOCRACIA; redimensionou o sentido do verbo “escolher”; engendrou um novo verbo frasal “ter de escolher”. Na moderníssima urna eletrônica não há aquela opção: “Nenhuma das alternativas...”, somos condicionados a escolher e pensamos estar exercendo nosso poder de escolha, cidadania. No processo eleitoral temos de escolher, sempre. Mesmo que o ANTIVOTADOR escolha, na caixa preta da política, a opção NULO, tecle uma combinação numérica qualquer e aperte CONFIRMA, ou queira tornar límpido o voto e escolha a opção BRANCO, isso não tornará possível o direito de “não escolher”. Nesta eleição, os votos brancos e nulos somarão, ainda, e elegeremos, de qualquer forma, dentre os CANDIDATUS, um representante para fazer usufruto do estado e da república. Sabe aquela máxima: “Penso que sim, penso que não. Antes pelo contrário...”. É assim que o VOTADOR sente-se diante da caixa de Pandora eletrônica. Mas é a festa da democracia – sistema comprometido com a igualdade ou a distribuição igualitária do poder... Faz de conta que é assim. 
         CAIXA DE PANDORA ELETRÔNICA
 
O mito da caixa de Pandora faz alusão à origem dos males que permeiam o mundo.

Já que se há de votar... Então, o que fazer diante da urna?  Vamos pensar naquela versão, menos coerente e plausível da caixa de Pandora, da mitologia grega. Pandora, primeira mulher a existir, criação dos deuses Hefesto e Atenas, foi enviada de presente para agradar aos homens. Epimeteu, que guardava outro presente dos deuses: uma caixa onde continha todos os males, responsabilizou-se e casou-se com Pandora. Ela por curiosidade e descuido, abriu a caixa e, alguns males escaparam... Na ânsia de reparar o erro, Pandora fecha a caixa, contudo restou apenas um mal: a ESPERANÇA... É, se o futuro do país estará nas CAIXAS ELETRÔNICAS DE PANDORA neste domingo, resta-nos ter ESPERANÇA e torcer para que dos males escolhamos o menor. E se pensarmos que “A esperança é um urubu pintado de verde”? Oh céus! Continuaremos no Caos... O VOTADOR pode, outrossim, analisar e votar no discurso menos utópico: “No meu governo o Brasil será a maior potência do mundo; acabamos com a fome no país; hoje, a maioria dos brasileiros é de classe média...” Humm!? “No meu governo todos os brasileiros terão água tratada; 13º salário do bolsa família; aumentarei o salário mínimo para R$ 600,00; construirei 150 policlínicas, além de hospitais e postos de atendimento para dependentes químicos.” Falácias? O que será que será?       

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

POR UMA POLÍTICA(GEM) DA IMAGEM


       Se não bastasse a poluição ambiental – falta de saneamento básico; consciência ecológica; local e coletores apropriados para se desfazer do LIXO – desde julho deste ano somos bombardeados, à queima roupa, por uma poluição sonora e visual. Ainda bem que o som se dilui no espaço, apesar de martelar em nossas mentes, às vezes – perturbação passageira. Mas a imagem, o deus da contemporaneidade, aprisiona nossa atenção (monotonia das alienadas retinas...): Rostos “límpidos”, expressões cândidas, sinceras, verdadeiras. Infelizmente, nem tudo que reluz é, verdadeiramente, ouro, coisa preciosa, pura, sabe?

       A imagem – ou melhor: falsa imagem, forjada em programa de computador – virou uma arma da política(gem), também. Os CANDIDATOS não respeitam, sequer, a lei instituída por um parlamentar, que tampouco respeita a ideia defendida por ele na câmara dos deputados em Brasília. A “LEI DO PHOTOSHOP”, do candidato Wladimir Costa (PMDB-PA), objetiva coibir o uso desenfreado deste programa que metaformoseia imagens. Destarte, as imagens lapidadas virtualmente, os “santinhos” que recebemos em nossas casas, deveriam conter a seguinte nota de rodapé: “ATENÇÃO: IMAGEM RETOCADA PARA ALTERAR A APARÊNCIA FÍSICA DA PESSOA RETRATADA.” Caso contrário as multas variam “... de R$ 1.500,00 (um mil e quinhentos reais) a R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), cobrada em dobro, em triplo e assim sucessivamente, na reincidência, aplicada conforme a capacidade econômica do infrator”. Valores irrisórios para os reincidentes dissimuladores CANDIDATOS. Portanto, somos enganados nas mídias e posteriormente na política(gem).





FICHA LIMPA: VINGANÇA ETIMOLÓGICA

      
       A Lei Complementar da “FICHA LIMPA” (135\010), que foi vilipendiada, pelo Supremo Tribunal Federal – STF e, não terá aplicação integral nesta eleição, intuía uma vingança etimológica do vocábulo CANDIDATO, rótulo utilizado, indevidamente, pelas pessoas que pleiteiam um cargo para funcionário do povo. Contudo, até o momento, está sendo usada como certificado de LIMPIDEZ – pelos CANDIDATOS que passaram no “tipiti” desta lei (os “fichas imundas” no caso) e, dos que ainda não se renderam, por falta de oportunidade, aos encantos do dinheiro público – na degladiação pelos “votadores”. Numa das transposições mais duais e irônicas, do latim para o português, “CANDIDUS – branco brilhante (e, por extensão, puro, sincero) – gerou o verbo CANDIDARE, ser branco como a neve, com seu particípio CANDIDATU, vestido de branco”.

       Na Roma antiga, o cidadão que concorria a um cargo público, diferente dessa política suja de hoje, fazia sua campanha vestido com um manto branco de lã, simbolizando sua CANDURA: PUREZA e HONRADEZ. Em português o termo CANDIDUS transformou-se em CÂNDIDO, que deu origem a CANDURA (CANDIDURA). Daí, CANDIDATU ficou CANDIDATO, despido e desprovido, clarividente, das acepções do latim. Que revés!!! Como apregoa a máxima “lulética”: “Estou convencido de que nunca na história desse país...” os candidatos, ou cândidos, despojaram-se tanto da toga branca dos romanos – alguns deles, quiçá, por não lhe servir de símbolo, algo representativo – chegando até a usar a própria feição irisada e “photoshopada” para ludibriar os “VOTADORES”. No dia 03 de outubro, cabe a nós tornar LÍMPIDO, branco, o nosso voto obrigatório (utopia), já que se votarmos tendo como parâmetro a pseudo-imagem dos nossos CÂNDIDOS, será difícil exercer a “democracia”...